Sou eu. Dizem-me que não sou fácil de lidar, sou mau, azedo…devo à doença esse lugar, num pódio tão alto que não consigo descer. Dizem que chamo e quando não me querem ouvir dizem-me que não os deixo trabalhar…trabalhar? Pensava ser eu o seu trabalho, mas reconheço que lhes meto medo...querem fugir, mas de alguma maneira passam sempre por aqui…já nem me recordo o numero do quarto e o colchão da cama tem já o meu molde. Já nem reconheço os meus braços cheios daquilo que eles me instilam e dizem que é para curar.
Insistem em fazer-me tudo como se eu não me fosse voltar a mexer e, quando lhes atiro à cara os efeitos secundários dos remédios que insistem em dar-me, dizem-me que sou “mau doente”, quando na verdade estou apenas impaciente para ver qual deles, ao passar por aqui, me diz o que quero ouvir.
Não consigo já contar os dias que não vejo passar, aqui fechado, já nem sei a que cheira o ar, aquilo que me chega ao nariz desce duma garrafa de oxigénio que alguém ligou, como se eu não fosse digno de respirar o outro ar…aquele que os outros respiram.
A comida é-me deixada naquela mesa de cabeceira inalcançável, como se quisessem gozar comigo, e perguntam-me eles “porque não come?”…
Quando lhes digo cheguem aqui não tenham medo, façam-me um pouco de companhia, respondem-me que não pode ser, existe mais gente aqui sabe?.
Eu não sou um mau doente, vocês só não sabem como me cuidar…
1 comentário:
É um texto muito bem conseguido, ainda para mais jogando com a área profissional onde estás inserida.
Bjs
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